20ª Primavera dos Museus
Tema: Museus para todas as pessoas
Quem são as pessoas que entram nos museus brasileiros? E, sobretudo, quem ainda permanece do lado de fora?
Responder a essa pergunta talvez seja um dos maiores desafios dos museus.
Ao afirmar “Museus para todas as pessoas”, a 20ª Primavera dos Museus não parte da ideia de que esse objetivo já foi plenamente alcançado. Ao contrário, propõe um convite à reflexão e à ação. Afinal, embora a cultura seja reconhecida como um direito de todas as pessoas e os museus contemporâneos sejam definidos como instituições abertas, acessíveis, inclusivas e comprometidas com a diversidade, milhões de brasileiros ainda encontram barreiras para acessar, participar e reconhecer nesses espaços suas histórias, seus patrimônios e suas identidades e memórias.
Essas barreiras nem sempre são visíveis. Algumas são físicas; outras, econômicas, comunicacionais, tecnológicas, cognitivas, sensoriais ou atitudinais. Existem também barreiras simbólicas, produzidas quando determinadas pessoas e comunidades não encontram, nas exposições, nos acervos, nas equipes ou nas narrativas museais, referências capazes de dialogar com suas experiências de vida.
Por isso, falar de museus para todas as pessoas significa muito mais do que ampliar o número de visitantes. Significa assegurar o direito à memória, ao patrimônio cultural, à participação e ao pertencimento. Significa reconhecer que cada pessoa deve poder encontrar, nos museus, não apenas objetos preservados, mas também histórias que dialoguem com sua própria existência.
Os museus e os Pontos de Memória brasileiros guardam um patrimônio de valor inestimável. Sob sua responsabilidade encontram-se acervos museológicos, arquivísticos e bibliográficos que preservam vestígios das múltiplas experiências humanas e da biodiversidade brasileira. São coleções de arqueologia, antropologia, etnologia, história, artes visuais, ciência e tecnologia, história natural, culturas afro-brasileiras, culturas indígenas, patrimônio ferroviário, marítimo, industrial, militar, universitário, comunitário, esportivo, entre tantas outras tipologias que revelam a extraordinária diversidade cultural do Brasil.
Mas a diversidade dos acervos, por si só, não garante a diversidade das narrativas.
Ao longo da história, muitos grupos sociais tiveram suas memórias silenciadas, suas contribuições invisibilizadas ou suas histórias contadas exclusivamente pelo olhar de outras pessoas. Construir museus para todas as pessoas implica reconhecer essas ausências e promover processos museológicos capazes de ampliar vozes, compartilhar decisões e fortalecer a participação das comunidades na pesquisa, na
documentação, na preservação, na comunicação e na interpretação do patrimônio cultural, como comumente vemos acontecer em museus comunitários e Pontos de Memória.
Esse desafio também possui uma dimensão territorial.
Os museus brasileiros estão distribuídos de forma desigual pelo país. A maior parte dessas instituições concentra-se nas regiões Sudeste e Sul, especialmente nas capitais e grandes centros urbanos, refletindo desigualdades históricas na ocupação do território, na distribuição de investimentos e no acesso aos equipamentos culturais. Enquanto isso, milhares de municípios brasileiros ainda não possuem museus, ou contam apenas com iniciativas comunitárias que enfrentam enormes desafios para garantir sua continuidade.
Democratizar o acesso aos museus também significa democratizar sua presença no território brasileiro.
Significa fortalecer museus e Pontos de Memória no interior do país, nas periferias urbanas, nas comunidades rurais, nos territórios indígenas, quilombolas, ribeirinhos e tradicionais, na Amazônia, no Semiárido, no Pantanal, nas regiões de fronteira e em tantos outros lugares onde pessoas e comunidades produzem patrimônio, conhecimento e memória todos os dias.
Significa reconhecer que nenhuma região é desprovida de história e que toda comunidade tem o direito de preservar, comunicar e compartilhar seus patrimônios e vivências.
Os Pontos de Memória, ecomuseus, museus comunitários, museus de territórios e outras experiências da museologia social demonstram que os museus também podem nascer da iniciativa das próprias comunidades, fortalecendo vínculos, identidades, pertencimentos e processos de transformação social. Essas experiências ampliam o próprio conceito de museu e reafirmam que preservar patrimônio é, antes de tudo, preservar pessoas, relações e modos de viver.
Construir museus para todas as pessoas também exige reconhecer que as desigualdades não afetam todas as pessoas da mesma forma.
Mulheres, pessoas negras, povos indígenas, comunidades quilombolas, povos e comunidades tradicionais, pessoas com deficiência, pessoas neurodivergentes, população LGBTQIAPN+, pessoas idosas, crianças, adolescentes, migrantes, refugiados, pessoas em situação de rua e tantos outros grupos historicamente excluídos da garantia de direitos e das políticas públicas vivenciam experiências distintas de acesso aos direitos culturais.
Por isso, acessibilidade não pode ser compreendida apenas como adaptação arquitetônica ou tecnológica. Ela deve constituir um princípio permanente da gestão museal, orientando a comunicação, a mediação cultural, a formação das equipes, a produção de conteúdos, a programação educativa e os processos de participação social, de modo a promover a equidade em nossas instituições culturais.
Museus para todas as pessoas também são museus que escutam.
Escutam seus territórios, reconhecem diferentes formas de produzir conhecimento, dialogam com as comunidades, compartilham decisões e compreendem que a construção da memória é sempre um processo coletivo.
Não basta ampliar o acesso das pessoas aos museus.
É igualmente necessário ampliar o acesso dos museus às pessoas.
Isso significa desenvolver ações extramuros, fortalecer redes comunitárias, ocupar escolas, praças, territórios, hospitais, centros socioeducativos, instituições de longa permanência, comunidades tradicionais, espaços públicos e tantos outros lugares onde a vida acontece. Significa compreender que, muitas vezes, é o museu que precisa dar o primeiro passo em direção às pessoas.
Ao completar vinte edições, a Primavera dos Museus reafirma seu papel como uma das maiores iniciativas de mobilização do campo museal brasileiro. Promovida pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), a 20ª Primavera de Museus convida museus, Pontos de Memória e instituições culturais de todo o país a desenvolverem atividades que ampliem o diálogo entre patrimônio, território, diversidade e cidadania.
Mais do que organizar uma programação, a 20ª Primavera dos Museus convida cada instituição a olhar para si mesma.
Quem frequenta o museu? Quem ainda não chega até ele? Quem participa das decisões? Quais memórias permanecem invisibilizadas? Que barreiras ainda precisam ser removidas? Que parcerias podem aproximar novos públicos? Como são tratados conflitos? Como fazer com que cada pessoa se reconheça como parte do patrimônio cultural brasileiro?
As respostas serão diferentes em cada território, porque diferentes são as comunidades, suas histórias, seus desafios e suas potências.
É justamente essa diversidade que torna os museus brasileiros únicos.
Museus para todas as pessoas não será uma realidade apenas quando todas as pessoas puderem visitar um museu. Será realidade quando todas elas puderem viver o museu e reconhecer nesses espaços parte de sua própria história, de sua identidade e de seus futuros possíveis.
A 20ª Primavera dos Museus é um convite para transformar esse compromisso em prática. Abrir portas, remover barreiras, ampliar escutas, compartilhar narrativas e fortalecer vínculos com os territórios.
Porque toda pessoa tem direito à memória.
Toda comunidade produz patrimônios.
E todo museu pode contribuir para construir um Brasil mais plural, democrático, acessível e com justiça social.
Sua instituição é parte fundamental dessa transformação.

